juan gelman, argentina (en portugues)
CHUVA
hoje chove muito, muito, e parece que estão lavando o mundo. meu vizinho do lado contempla a chuva e pensa em escrever uma carta de amor/ uma carta à mulher que vive com ele e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele e parece sua sombra/ meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher/ entra em casa pela janela e não pela porta/ por uma porta se entra em muitos lugares/ no trabalho, no quartel, no cárcere, em todos os edifícios do mundo/ mas não no mundo/ nem numa mulher/nem na alma/ quer dizer/nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim/ como hoje/que chove muito/ e me custa escrever a palavra amor/ porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa/ e somente a alma sabe onde os dois se encontram/ e quando/e como/ mas o que pode a alma explicar?/ por isso meu vizinho tem tormentas na boca/ palavras que naufragam/ palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na mesma noite em que amou/ e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá/ como o silêncio que há entre duas rosas/ ou como eu/que escrevo palavras para voltar ao meu vizinho que contempla a chuva/ à chuva/ ao meu coração desterrado/
In Isso (Paris, 1983-84) Tradução e introdução de Andityas Soares de Moura e Leonardo Gonçalves Editora UnB, Brasília, 2004- envio carlos machado, poesia.net
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Por lobitogabriel - 15 de Septiembre, 2007, 8:26, Categoría: poesia
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